Polêmica no Japão: ramen chega a custar o dobro para turistas em Osaka

Preço duplo em ramen de Osaka gera polêmica e dono cita segurança

Restaurante Kadoya Shokudo cobra até o dobro no menu em inglês; prática reacende debate sobre cobrança diferenciada para turistas no Japão

Um restaurante de ramen em Osaka, o Kadoya Shokudo, tornou-se o centro de uma polêmica nacional ao adotar um sistema de preços que resulta em cobranças significativamente mais altas para clientes que usam o menu em língua estrangeira. Enquanto um ramen básico custa 864 ienes (cerca de R$ 30) no cardápio em japonês, o mesmo item no menu em inglês é oferecido por 1.500 ienes (aproximadamente R$ 52), uma diferença que chega a quase o dobro do valor.

O dono do estabelecimento, Yusuke Arai, um ex-artista marcial, defende a prática. Em vídeo publicado no canal do restaurante no YouTube, ele argumenta que a diferença não é baseada na nacionalidade, mas na capacidade de compreender o japonês. Arai afirma que seu ramen, do estilo ‘家系’ (ikei), tem um sabor específico que nem todos os japoneses apreciam e que personalizações são comuns. Segundo ele, explicar essas nuances para quem não domina o idioma seria impossível durante o expediente. Por isso, o menu em inglês ofereceria apenas ‘ramens premium especiais’ com uma combinação garantida para agradar, justificando o preço mais alto.

Entretanto, a explicação é contestada. Comparações feitas por clientes nas redes sociais mostram que as descrições dos ingredientes no menu japonês batem exatamente com as fotos dos ‘ramens premium’ do menu em inglês. A controvérsia escalou no início de janeiro, quando o perfil oficial do restaurante no Twitter relatou um conflito com clientes chineses, que, após comerem, teriam questionado a diferença entre o prato servido e o pedido, pedindo reembolso. A discussão teria levado a equipe a ameaçar chamar a polícia. Na mesma publicação, o restaurante chegou a afirmar que 90% dos problemas com estrangeiros envolviam clientes chineses e que considerava banir esse grupo.

O caso do Kadoya Shokudo reacendeu um debate amplo no Japão sobre a adoção de preços duplos para turistas e residentes. Com o boom do turismo pós-pandemia e o yen desvalorizado, atrações e serviços começam a testar modelos diferenciados. O novo parque temático Junglia, em Okinawa, por exemplo, já anuncia ingressos mais caros para compradores internacionais. Especialistas apontam que, enquanto cobrar mais de visitantes é comum no mundo todo, a forma de implementação é crucial. Modelos baseados em comprovação de residência, como o ‘Kamaʻāina discount’ do Havaí, são vistos como mais justos e menos passíveis de acusações de discriminação do que distinções baseadas apenas na língua ou no visual do cliente.

A discussão também ocorre em um momento sensível para a indústria do ramen. Dados do Teikoku Databank indicam que o custo dos ingredientes e a falta de mão de obra têm pressionado os negócios, com falências aumentando e o preço médio de uma tigela se aproximando pela primeira vez da barreira psicológica de 1.000 ienes. Para alguns, a estratégia do restaurante de Osaka reflete a pressão econômica do setor e a tentativa de capitalizar sobre a demanda turística, ainda que de maneira controversa.

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